sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Unidade Transcendente das Mitologias - Colaboração de Caio Rossi

É comum entre autores perenialistas, apesar de se dizerem contrários à mistura de formas tradicionais, a utilização de aspectos presentes somente em uma tradição para explicar uma outra, e desta para explicar a primeira ou uma terceira, de tal forma que, no final do processo, o que resulta é um retalho eclético contrariando o princípio originalmente anunciado.


Tive um flashback dessas leituras ao acompanhar a posição tomada por um conhecido meu, que é cristão ortodoxo, em um desses sites de perguntas e respostas, diante da recente discussão sobre o culto a Shakti (ver aqui). Resumidamente, ele diz não acreditar que o tantrismo seja uma forma de satanismo, apesar daquele, em suas palavras, “lidar também com forças demoníacas no sentido de ctônicas”, mas que isso não constitui, por si mesmo, evidência suficiente. 



O termo ctônico vem do grego Khthon, que se refere ao subsolo, ao que está dentro da terra ou que dela surge. Não creio que ele tivesse em mente, ao se referir a tais “forças”, algo físico, material, como a dita ação radiestésica de lençóis freáticos, veios de minérios, etc.


Outra possibilidade é que tenha utilizado o termo no sentido com que é frequentemente empregado na chamada “psicologia profunda”, como na escola junguiana, onde se refere a supostas forças psíquicas de origem mais ancestral. Sua aplicação nessa área advém da mitologia grega, que abordarei mais abaixo.


Ele certamente sabe que a Igreja Ortodoxa não desvincula “forças psíquicas” da ação demoníaca. Por exemplo, o Arquimandrita Irenei, em The Beginnings of a Life of Prayer (ver aqui), diz, logo na primeira parte do livro (minha tradução):

“... Que existe o diabo, que há demônios, e que esses seres estão em guerra ativa contra a humanidade e sua salvação é um testemunho tão fundamental da Igreja que é chocante que seja necessário esclarecê-lo entre os cristãos; no entanto, isso é mais frequente do que deveria”.

Após relembrar como a narrativa evangélica é repleta de demônios e de seu combate pelo Cristo, ele arremata:

Se esse é o trabalho do Cristo em Sua vida humana, pode a do cristão ser outra coisa? Porém, ... se a existência do diabo é sequer admitida, ele é concebido como um tipo de personificação genérica do mal e tudo o que é contrário a Deus; todavia, novamente, isso é frequentemente articulado de uma forma que objetiva somente determinar que a força do bem tem sua contraparte, mas não como uma admissão genuína da existência de um ser dotado de identidade, vontade, intenção e um envolvimento ativo em nossas vidas enquanto seres humanos...”

O autor cita então as palavras do próprio Cristo, em João 8:44 (ver aqui, sobre Satanás:

[E]le foi homicida desde o princípio e não se firmou na verdade, porque não há verdade nele; quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira”.


 Ou seja, a tradição cristã reconhece a ação de “forças demoníacas no sentido de demoníacas mesmo”, não como meras forças psíquicas ancestrais. De fato, nem mesmo Jung acreditava nisso, se levarmos em consideração o que Seyyed Hussein Nasr diz em The Philosophy of Seyyed Hussein Nasr (ver aqui), onde ele informa ter ouvido diretamente de Mircea Eliade, que participara dos Encontros do Círculo de Eranos juntamente com Carl G. Jung, que a “psicologização” dos aspectos espirituais empreendida pelo psicólogo suíço era, segundo lhe teria confidenciado o próprio, somente uma forma de tornar seu pensamento mais palatável à comunidade científica e à intelectualidade.


De qualquer forma, tampouco creio, pelo que conheço de suas posições, que fosse esse o sentido pretendido com a referência às forças ctônicas. Sendo assim, o único sentido restante para o termo é o original, vinculado aos antigos gregos mesmo, e que é o que considero mais provável que ele tivesse em mente. Então vamos aos gregos.

Certamente todos os leitores conhecem algo sobre os deuses do Olimpo, como Zeus, Diana, etc. No entanto, esse é somente um aspecto do panteão divino dos antigos gregos. Raramente ouvimos falar de sua contraparte, a dos deuses ctônicos, ou telúricos, como Hades, Hécate, entre outros.

Diz-se normalmente que os cultos aos deuses olímpicos eram mais “racionais” do que os exigidos pelas divindades ctônicas, podendo-se dizer que, nos rituais associados aos primeiros, havia uma atitude de “serviço”, de se oferecer algo para se conseguir alguma coisa em troca, em rituais que comumente ocorriam à luz do dia. No caso dos rituais às divindades ctônicas, eles tendiam a ocorrer à noite e sua finalidade era geralmente a de afastar tais seres, evitando sua influência funesta.



O problema é que nem os celestes olímpicos e nem os subterrâneos ctônicos são deuses cuja divindade, ou mesma a existência, é afirmada pelo Cristianismo. Logo, o que temos é um cristão ortodoxo ignorando o que diz sua fé e lançando mão de conceitos e seres exógenos a ela - a mitologia grega – para explicar e defender uma terceira coisa ainda – o tantrismo. Apesar de que ele mesmo criticou publicamente essa miscelânea perenialista há não muito tempo, percebe-se ainda uma certa “Unidade Transcendente das Mitologias” influenciando suas posições.

Ora, ctônicas ou olímpicas, gregas ou “hindus”, cabe a essas “divindades” somente duas naturezas possíveis sob uma perspectiva cristã: a de meras fantasias do imaginário dos povos pagãos ou a de anjos caídos, ou demônios, da narrativa bíblica e dos Santos Padres. Não se pode, portanto, falar, de forma coerentemente cristã, de “forças demoníacas no sentido de ctônicas” distinguíveis, em essência, do culto a Shakti: ou essa deusa é uma ilusão, ou é também uma força demoníaca.
Além disso, há outros dois problemas em sua análise, e que chamam atenção imediatamente de quem estuda esses assuntos já há algum tempo:

Um problema de natureza acadêmica: é praticamente um consenso entre os especialistas que a divisão rigorosa entre símbolos e cultos associados a deuses olímpicos e ctônicos não se sustenta, pois há diversos exemplos de rituais e símbolos aparentemente “ctônicos” em práticas relacionadas a deuses olímpicos. Ou seja, no caso grego, pode-se falar de “forças demoníacas no sentido de olímpicas” também.

Um problema de natureza religiosa: como lhe é certamente conhecido, a Igreja Ortodoxa enfatiza a relação dos demônios com o ar, não com a terra, o que torna absolutamente disparatada a identidade exclusiva, pelo que o contexto sugere, entre o demoníaco e o ctônico, o que deixaria as “divindades olímpicas” livres de tal conotação. Citando o Arquimandrita novamente:

“A Igreja ensina, clara e sobriamente, que o reino demoníaco é uma realidade, que não é um mistério completo para o homem... O próprio diabo é conhecido pelo nome; mais apropriadamente, por muitos nomes – ‘Lúcifer’, ‘Satã’, ‘o Tentador’, ‘Belzebu’, etc. Sabe-se que as hostes de anjos que o seguiram em sua apostasia foram lançadas para fora do Reino, e que existem agora no mundo etéreo ou aéreo, assim como no próprio hades. Os [Santos] Padres consistentemente proclamaram seu “território” como sendo sobretudo o ar: assim o diabo é conhecido como ‘o príncipe das potestades do ar’ (ver aqui), os demônios são ‘as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestes (ver aqui.

Mas a importância desse assunto vai muito além de qualquer discussão teológica, passando bem longe de um fanatismo exclusivista exagerado de minha parte. Na base do esoterismo em geral, do perenialismo em especial e da maçonaria, há o culto à Grande Mãe em suas supostas manifestações trinas nas diferentes tradições ao longo da história. No Cristianismo, essa interface é feita através da “esoterização” do culto a Maria, sobretudo, mas não exclusivamente, utilizando-se o culto às Virgens Negras.


A consciência dessa trama sinistra, que será exposta em meu próximo texto, joga luz em uma série de eventos que estão ocorrendo atualmente no mundo em geral e no Brasil em particular. E, para demonstrar isso, não será necessária nenhuma obra de engenharia argumentativa de minha parte: bastará reproduzir o que os envolvidos já revelaram.   

Por Caio Rossi

5 comentários:

  1. Carlos, qual é a sua opinião sobre a volta das relações diplomáticas entre Cuba e Estados Unidos e a um possível fim do embargo americano a Cuba?

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  2. Esta associação das ordem angélicas com graus de ser não tem relação com o "AS hierarquias celestes" do dioniso-aeropagita do século V?Se tiver então está na mais pura ortodoxia cristã

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    1. O anônimo de cima desconhece que a obra de Dionísio é praticamente uma cópia de Proclo. E recentemente a hipótese de que se trata de uma obra de infiltração cripto-pagã tem emergido nos estudos europeus sobre o tema. Isso demonstra que a infiltração pagã é mais velha que Guenon... ..

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  3. Infiltração pagã....então toda a patrística tem que ser posta fora pois em grande parte é uma tentativa de harmonizar a revelação cristã com o pensamento da filosofia pagã...topos se livrar dos Pais Capadócios e de Santo Atanásio e Santo Agostinho devido ao grande influxo de pensamento neoplatônico destes?Topas se livrar de grande parte da tradição cristã?

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  4. Você realmente não consegue ver a diferença?
    Estava me referindo somente ao copycat óbvio de Proclo que chamam de São Dionisio, cuja obra não é de reaproveitamento conceitual mas sim de puro sincretismo.
    E quem está falando isso não sou eu.
    Procure pelo trabalho de Tuomo Lankila. Aliás, qualquer estudioso neoplatônico pode facilmente constatar o plágio.
    Não é como nos Padres, aonde a terminologia pagã é usada para expor a doutrina cristã, e sim o contrário, puro paganismo travestido de uma terminologia cristã.
    E o que é o perenialismo? Exatamente isso! Paganismo puro, culto às legiões demoníacas travestido de monoteísmo.

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