domingo, 23 de junho de 2019

Lava Jato ou Judge Eats?




Que a Operação Lava Jato teve como inspiração a Mãos Limpas italiana é um fato bem conhecido. 

Para que não restem dúvidas, a Folha de São Paulo demonstrou isso através de um paralelo entre as ações da Lava Jato e a descrição da Mãos Limpas feita pelo juiz Sérgio Moro, então um ilustre desconhecido, em um artigo publicado ainda em 2004.

O próprio Serio Moro comparou as operações em uma palestra para procuradores em 2015. Conforme relato da Revista Exame, aliás, "Moro lamentou que algumas oportunidades foram perdidas na Itália, citando como exemplo uma lei que anistiou alguns corruptos", mas que, em suas palavras, "não necessariamente devem ser perdidas aqui no Brasil".

Isso não impediu que, três anos depois, ele mesmo relevasse o crime eleitoral de Onyx Lorenzoni, dando-se por satisfeito pelo fato de que "Ele já admitiu e pediu desculpas". 


Voltando a 2015, na breve sabatina após a palestra:

Ao falar do bilionário e ex-primeiro ministro italiano Silvio Berlusconi, que a despeito de todas as evidências de corrupção ficou por três mandatos no poder, antes de renunciar em 2011, Sergio Moro disse não crer que as conquistas já obtidas no Brasil se percam e propiciem que “um aventureiro” assuma o comando do país.

De qualquer forma, em 2018, o juiz Moro aceitou o convite de um outro aventureiro - e candidato beneficiado pela condenação instantânea de Lula, levada a cabo pelo mesmo juiz -, tornando-se seu Ministro da Justiça. E disse tê-lo feito inspirando-se em decisão semelhante tomada pelo coordenador da operação italiana.

Ontem foi publicada, no blog Bem Blogado, uma entrevista com um magistrado que integrou a Operação Mãos Limpas. Ele diz, referindo-se às recentes revelações da Intercept:

Na Itália, caso existissem relações entre o juiz e o Ministério Público que não estivessem dentro da investigação, as críticas sobre essas relações seriam corretas. (…) As violações das regras provocam os efeitos que podem levar nulidade dos atos ou mesmo podem ter efeitos com conseqüências disciplinares. Ou seja, a violação das regras provoca até efeitos penais.

Bolsomínions e olavettes têm se negado a acreditar nessas revelações.

Mas, já que os paralelos com a operação italiana são inegáveis, como eles reagiriam diante do que o Guru da Vírginia escreveu sobre ela?

Em 2001, Olavo de Carvalho disse que a publicidade em torno da Operação Mãos Limpas na Itália tinha uma finalidade política: desviar a atenção do público para crimes de menor importância para proteger uma vertente política - nesse caso, a esquerda. É o que se lê nesse parágrafo:


Desde que, no começo dos anos 90, o dissidente Vladimir Bukovski trouxe dos Arquivos de Moscou as provas de que praticamente toda a imprensa social-democrática européia tinha sido financiada pela KGB na década anterior — suscitando imediatamente a eclosão da Operação Mãos Limpas, com que uma organizada elite de juízes comunistas desviou a atenção do público para casos de corrupção doméstica.

Em 2006, voltou ao assunto:


Com anos de antecedência, em 1993, expliquei que a “Campanha pela Ética na Política” tinha sido concebida exatamente para isso, que qualquer concessão à versão brasileira da “Operação Mãos Limpas” (ela própria um truque esquerdista sujo) seria apenas cumplicidade suicida com a estratégia mais perversa e astuta já adotada pela esquerda nacional ao longo de toda a sua existência.

Em 2011, disse a mesma coisa, mas com outras palavras:

...Mas sua divulgação, feita na Itália, não vingou: foi bloqueada pela deflagração da “Operação Mãos Limpas”, a qual, mediante eficazes acusações de corrupção menor, logrou as lideranças liberais e conservadoras para que se abstivessem de investigar aquilo que foi certamente o mais vasto empreendimento de compra de consciências em toda a história humana. Ajudando assim os comunistas a escorregar para fora da linha de investigações, a célebre ofensiva moralista da magistratura italiana talvez contivesse em seu nome uma alusão ao sabonete usado em análogas circunstâncias pelo mais escorregadio dos magistrados, o limpíssimo Pôncio Pilatos.

Apesar de querer parecer muito ciente dos interesses por detrás desses grandes movimentos de moralização política, o Olavo gravou um vídeo parabenizando Moro por ter mandado prender... a esquerda.



Parafraseando sua análise sobre a inspiradora Mãos Limpas, ele poderia coerentemente ter dito que a Operação Lava Jato é, ela própria, um truque entreguista sujo através do qual uma organizada elite de juízes, muitos deles treinados pelos americanos, desviou a atenção do público para casos menores de corrupção enquanto ajudava a destruir a economia doméstica e entregá-la nas mãos de terceiros de forma análoga à de uma ligeiríssima empresa americana, constituindo uma espécie de Judge Eats.

quarta-feira, 19 de junho de 2019

Brasil vs Brasil: chegando ao ponto de não retorno




Desde o súbito e explosivo aparecimento de Sérgio Moro na cena nacional, desconfiado dos métodos e do timing da Lava Jato (cruzem o cronograma dessa operação com o caso Snowden e as revelações sobre a espionagem americana no Brasil), tratei de investigar a biografia do indivíduo. Para minha surpresa, não foi preciso me esforçar para descobrir que o facínora tinha sido formado num programa do Departamento de Estado americano, instituição central na formulação e implementação da política externa de Washington, numa altura em que uma modalidade jurídica da guerra híbrida, conhecida por lawfare, se tornava num tema de discussão corrente nos meios especializados.

A intersecção entre as acções de Moro e a evolução política do Brasil, com destaque para a oportuna prisão de Lula da Silva, só reforçaram o que os factos diziam de forma tão eloquente. O descaramento chegou ao ponto de Moro, um juiz provinciano numa instância insignificante e tão mal formado que nem sequer domina o português, ter sido mencionado pela Fortune e pela Time, veículos de informação muitos próximos de sectores do deep state, como uma das mais influentes personalidades do mundo no ano de 2016! As obscuras ligações com esquemas de corrupção, por meio da esposa, e o arrivismo nouveau riche do justiceiro, ainda por cima se encaixavam no tipo de perfil habitualmente encontrado em tais agentes. No seu caminho, nos vários desdobramentos da Lava Jato, deixou em ruínas várias das mais importantes empresas brasileiras, como a Odebrecht, que começava a entrar no sector da defesa, e levou o vice-almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva, um “asset” importantíssimo que em qualquer nação que aspira a uma posição de relevo seria protegido a todo o custo, ao cárcere, entre outros crimes de lesa-pátria.

Agora, depois de toda a obra de destruição conduzida por este criminoso, temos a prova de que não se trata de um juiz, e muito mais virá à tona. Relembro que o mesmo, há pouco tempo, esteve à frente de uma campanha para que fundos da Petrobrás retidos nos Estados Unidos fossem usados para a criação de uma “Fundação Lava Jato”, o que equivale à institucionalização de um estado paralelo muito mais perigoso do que aquele que acusavam o PT de ter erguido durante as presidências de Lula e Dilma. E tudo isso em conluio directo com as autoridades americanas! Porém, é bom não esquecermos qual foi a fonte da informação, ou seja, o Intercept, o mesmo veículo que se apropriou das informações fornecidas por Snowden, das quais revelou apenas um pequeno percentual. O Intercept foi fundado com recursos do bilionário Pierre Omidyar, sujeito que, ao contrário do que a trupe olavo-bolsonarista acusa, de esquerdista não tem nada, para além de ligações patronais com esquerdistas. Pierre Omidyar, por exemplo, é desde há muito um dos mais activos promotores da guerra ao regime de Maduro, mantendo ligações tanto com o sector intervencionista do Partido Democrata quanto com os Neo Cons. Ideologia, meus caros, é coisa de pobre.

Há muito tenho escrito que o impeachment de Dilma não foi um evento que se esgotou em si próprio, mas apenas um passo para algo bem mais ambicioso, tal e qual a eleição de Bolsonaro. Quando da altura da campanha pelo impeachment, fui veemente na minha oposição a esse passo pueril e inútil, afinal, o governo Dilma estava na reta final, com uma popularidade baixa e decrescente, sendo mais do que certo, ainda mais na conjuntura económica existente, que o PT não sobreviveria ao término do mandato presidencial e acabaria por se fragmentar sob pressão dos interesses eleitorais dos seus quadros. Dilma já não tinha força para nada nessa altura do mandato e teria havido tempo - e calma - suficiente para que se encontrasse alternativas presidenciáveis que tirassem o Brasil do impasse ao invés de se polarizar ainda mais a nação.

Porém, graças ao impeachment, tivemos um pífio governo Temer, associado à direita, o que deu tempo para o PT se reorganizar para as eleições. Em tal cenário foi Bolsonaro, impulsionado pelo medo de um retorno à presidência do PT e pela retórica conspiracionista olaviana, para além de fundos generosos e do cansaço com a "direita tradicional", que se beneficiou. Com a prisão de Lula, e a entrada de Haddad na corrida presidencial, factor que esvaziou a única campanha nacionalista, a de Ciro Gomes, para além da providencial facada, Bolsonaro venceu. Mas a sua legitimidade fica agora ameaçada pelas revelações do Intercept e Lula, aos poucos, especialmente com o desgaste do governo Bolsonaro, vai se tornando num herói, ou melhor, num mártir. As massas, especialmente no Brasil, se movem de maneira ciclotímica, conduzidas por paixões fugazes...

As manifestações contra os cortes na educação há algumas semanas foram um ensaio do que virá. O PT ameaça roubar a bandeira do anti-bolsonarismo e Ciro Gomes, o mais forte nome entre os presidenciáveis alternativos e, mais importante, o único não alinhado com as directrizes da banca, pode desaparecer no meio da crescente polarização entre um PT renascido das cinzas e um bolsonarismo cada vez mais virulento e paranóico. O que acontecerá se o processo continuar? De um lado, teremos o ressurgimento do PT como força política de primeira ordem, agora em torno de um ídolo mártir cujo carisma e apoio internacional o colocam ao nível de um Mandela, e do outro o reforço da direita fanatizada pela retórica anti-comunista olavo-bolsonariana, que aos olhos dos seus sequazes se confirmará pelo retorno do PT à cena política e pelo fracasso desta primeira experiência olavo-bolsonariana, que será prontamente atribuído a uma conspiração qualquer.

Seja qual for o resultado político, no nível mais rasteiro, desta polarização, num processo que até ameaça fracturar de vez o Brasil e pode conduzir, sem exagero, à guerra civil e ao separatismo, uma coisa é certa: ganharão os interesses externos e o país, num mundo cada vez mais sofisticado onde já se encontra à mercê dos grandes poderes, estará condenado à irrelevância, no melhor cenário, ou a algo bem pior.  Não esqueçam que o Brasil é importante demais para ser ignorado, mas grande demais para ser digerido, e que a América Latina agora se encontra numa posição central no tabuleiro geopolítico. Nada de surpreendente pois já lá vão 4 décadas perdidas e o hiato que separa o Brasil, com seus importantes recursos, do mundo desenvolvido, ávido por tais recursos, só aumentou, e isso num tempo em que as distâncias físicas diminuíram sobremaneira e as fronteiras a nível de informação quase deixaram de existir. Do ponto de vista geopolítico o Brasil, meus caros, é uma presa rica e fácil, ou seja, é irresistível, e o isolamento psicológico a que se acostumaram os brasileiros, durante tantas gerações afastados de um mundo que parecia distante e exótico, os torna particularmente inadaptados para o grande jogo. 

De resto, tenham em conta que o verdadeiro presidente do Brasil, como já referi, não é Bolsonaro, mas sim Olavo de Carvalho, outro capacho do Departamento de Estado americano, tendo por aliados o estado paralelo criado por Sérgio Moro e o representante dos interesses bancários internacionais, Paulo Guedes. A actual presidência tem os dias contados, é verdade, e muito provavelmente veremos o retorno do PT ao poder, porém, a cultura política consagrada pela chegada dos olavistas ao executivo veio para ficar e sairá reforçada com isso. Voltarei a escrever sobre o assunto numa outra ocasião.

terça-feira, 7 de maio de 2019

Olavo lambendo Aldo Rebelo

Agradeço ao deputado Rebelo a permissão para reproduzir este seu brilhante ensaio publicado na revista Princípios de julho de 2000, no qual, conforme já assinalei no meu relato do nosso debate na PUC, o detalhe da informação errônea sobre a Igreja e os índios, logo no começo, em nada modifica o sentido do conjunto. -- O. de C.

http://www.olavodecarvalho.org/convidados/rebelo.htm


segunda-feira, 22 de abril de 2019

Olavo, o físico e a modelo-manequim.

Olavo de Carvalho voltou a se gabar de ter o visto americano que foi igualmente concedido a Albert Einstein, o EB-1, e que, por essa razão, é popularmente conhecido como "Einstein Visa":
 
 

Isso pode parecer realmente muito impressionante, mas vejamos o que diz Susan McFadden, especialista em vistos americanos de um escritório de advocacia em Londres, do qual é uma das sócias:
Você não precisa ter um prêmio Nobel para conseguir um visto para capacidades extraordinárias. Eu consegui vistos EB-1 para pessoas das quais você nunca ouviu falar e nunca ouvirá.

Um advogado experiente sabe o que os serviços de imigração e cidadania americanos estão procurando, e como destacar, da experiência do cliente, as coisas que serão atraentes à agência.





Essas declarações foram dadas a uma matéria da BBC.

E por que eles fizeram essa matéria? Para entender a razão de Olavo de Carvalho ter o EB-1?
Não. Foi para tentar compreender como foi possível que ele também fosse concedido à eslovena Melania Knauss, atualmente conhecida como Melanie Trump, esposa do presidente americano, mas que então não passava de uma simples modelo.


É isso mesmo: o EB-1 é reservado, como explica a matéria, somente "em teoria a pessoas altamente prestigiadas em suas áreas - o governo cita vencedores do Pulitzer, Oscar e campeões olímpicos -, assim como pesquisadores acadêmicos respeitados e executivos de multinacionais". A realidade é bem outra:
.. [a]s instruções oficiais para os candidatos citam prêmios Nobel e reconhecimento internacional, mas a realidade é geralmente mais prosaica, diz Susan McFadden [...]
E quanto ao fato de Melanie Trump ter conseguido o "Einstein visa", apesar de ser somente uma modelo?
A matéria prossegue:
O advogado dela se negou a publicar detalhes de seu pedido, logo não temos como saber o que ela apresentou como evidência. Mas ela pode ter sido ajudada por cartas de recomendação de pessoas importantes, disse Nita Upadhye, uma especialista em imigração americana....
Recomendações são parte da solicitação, e quanto mais alto o perfil da referência, maior o peso que elas carregam. Se a Sra. Trump, já se relacionando com o Sr. Trump quando solicitou, garantiu cartas dos luminares da moda, isso seria significante, disse Upadhye: 'Se você é do mundo da atuação, e Quentin Tarantino ou Steven Spielberg escreve uma carta dizendo que você é a nova tendência, isso pode ser persuasivo".
Então, em resumo, o Olavo tem o visto que foi concedido a um dos maiores físicos da história, mas também a uma modelo. E poderia ser concedido a Rodrigo Santoro, ou, sei lá, a um lutador de jiu-jitsu com QI 70 e as orelhas cheias de pus.
Mas o que o próprio Olavo diz do cientista ao qual sugestivamente se compara? Que não passava de um "gênio da picaretagem" e que tinha "fama 100% imerecida".



Esse Olavo tem formas muito estranhas de ter razão.

domingo, 7 de abril de 2019

Bolsonaro e Araújo: querem que Hitler desenhe?


Em 2017, Dinesh D'Souza, intelectual conservador conhecido nos EUA, porém de origem indiana, e que já foi preso por ter cometido fraude eleitoral, lançou um livro em que alegava expor as "raízes nazistas da esquerda americana".  




E, ainda em 1944, Ludwig Von Mises já havia proclamado a influência marxista pelo menos nas idéias econômicas dos nazistas.





De uma forma ou de outra, não é de hoje que autores populares na direita americana tendem a identificar o nazismo com o socialismo (não muito diferente da esquerda, frequentemente disposta a chamar qualquer liberal de "fascista"), tornando esse veredito, longe de consensual academicamente, extremamente comum entre os conservadores por lá. 

Essa atual celeuma sobre o tema envolvendo autoridades brasileiras - não só o Ministro Ernesto Araújo, como o próprio Presidente -  é só consequência da absorção de cacoetes americanizados pela direita daqui, em um fenômeno não muito diferente da presença da Estátua da Liberdade na loja de departamentos do empresário bolsomínion.




E não me parece que seja uma questão sem fundamento: como dizer que uma agremiação política denominada Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães não era socialista? 

Eu mesmo já concordei com essa posição exatamente devido a essa evidência aparentemente insofismável. Isso até eu perceber que, pelo mesmo critério, a esquerda americana seria toda composta de liberais pelo simples fato de que, nos Estados Unidos, "liberal" é o termo empregado para se referir à esquerda. Ou que os conservadores americanos seriam monarquistas, como seus congêneres britânicos, apesar de se identificarem como defensores dos princípios e valores que nortearam a constituição liberal-revolucionária de seu país.
Ou seja: será que o termo "socialismo" e seus derivados tinham o sentido usual também para os fundadores do Partido Nazista?


Não foi isso o que respondeu Hitler, em uma entrevista concedida em 1923 e republicada em 1932, conforme reprodução pelo jornal The Guardian e da qual traduzo alguns trechos essenciais para a discussão:



"Quando eu tomar o poder na Alemanha, colocarei um fim nos tributos externos e no bolshevismo doméstico [...] O bolshevismo [...] é nossa maior ameaça. Mate o bolshevismo  na Alemanha e você restaura o poder de 70 milhões de pessoas. A França deve sua força não a seus exércitos, mas às forças do bolshevismo e ao dissenso em nosso meio [...]"


Essas foram palavras do próprio Führer. Mas, ainda assim, pode-se argumentar que ele criticava o socialismo internacionalista russo, não sua suposta vertente nacionalista. Isso parece ter ocorrido ao entrevistador também, que, no entanto, estranha o fato do programa do partido de Hitler não refletir isso:

"Por que [...] o Senhor chama a si mesmo de nacional-socialista, já que o programa do seu partido é a própria antítese do que se comumente atribui ao socialismo?"


Ao que ele respondeu:

"O socialismo [...] é a ciência de se lidar com o bem-estar comum. O comunismo não é socialismo. O Marxismo não é socialismo. Os marxistas roubaram o termo e confundiram seu significado. Eu arrancarei o socialismo dos socialistas.
O socialismo é uma antiga instituição germânica, ariana. Nossos ancestrais alemães tinham certas terras em comum. Eles cultivavam a idéia do bem-estar comum. O marxismo não tem o direito de se disfarçar de socialismo. O socialismo, diferente do marxismo, não repudia a propriedade privada. Diferente do marxismo, ele não envolve a negação da personalidade, e, diferente do marxismo, é patriota. 
Nós poderíamos ter nos denominado de Partido Liberal. Nós escolhemos nos denominar nacional-socialistas. Nós não somos internacionalistas. Nosso socialismo é nacional. Nós exigimos o cumprimento das justas súplicas das classes produtivas pelo Estado na base da solidariedade racial. Para nós, estado e raça são unos". 
"[...] As favelas [...] são responsáveis por nove décimos, e o álcool por um décimo de toda a perversão humana. Nenhum homem saudável é marxista. Homens saudáveis reconhecem o valor da personalidade".
"[...] Nossos trabalhadores têm duas almas: uma é alemã, e a outra é marxista. Nós temos de despertar a alma alemã. Nós temos de extirpar o cancro do marxismo. Marxismo e germanismo são antíteses."
 A propósito, a mesma entrevista cita palavras de Leon Trotsky na qual o mais internacionalista dos comunistas - na realidade, o mais interplanetário dos comunistas - sugere que o nacional-socialismo alemão seria "o último baluarte da propriedade privada".

Deu para entender ou querem que Hitler desenhe?

Caio Rossi - Publicado originalmente no blogue Pérolas da Nova Direita

quarta-feira, 3 de abril de 2019

Nacional-Gnosticismo III: a Grande Cadeia do Ser





Vimos, na primeira parte desta série, as alusões do Ministro Ernesto Araújo a autores esotéricos em "Trump e o Ocidente", artigo que escreveu para uma revista de relações internacionais e que Olavo de Carvalho utilizou como referência ao recomendá-lo ao cargo no Governo Bolsonaro. 
É com base em conceitos esotéricos que também se ergue sua concepção de nação, como se verifica nesse trecho:
Fernando Pessoa ... dizia na Mensageur: '"As nações todas são mistérios. Cada uma é todo o mundo a sós"... [S]ua reação é justamente a tentativa genial de recuperar ou reinventar o nacionalismo mítico [...], refundar a unicidade profunda, multidimensional, transpolítica da nacionalidade ... 'As nações todas são mistérios': aqui, a palavra 'mistérios' pode se ler não só no sentido de enigma inescrutável, mas também de celebração e rito iniciático, de culto mistérico, como nos mistérios de Elêusis, e nesse sentido cada nação é também uma religião. [meus grifos]
Essas considerações reforçam o que foi dito na segunda parte sobre a acepção esotérica do termo "metapolítica" quando empregado pelo Chanceler. Como explicado então, metapolítica, nesse sentido, toma como princípio a existência de um "saber primordial comum a todas as civilizações", o que a tornaria, segundo seus defensores, a "expressão de uma ciência não profana, e sim sagrada", que "penetra no mistério escatológico da história" expressando "um projeto que [...] os homens retos esforçam-se de [sic] realizar na terra..."
É com esse pano de fundo que se deve ler as seguintes afirmações de Ernesto Araújo logo no início do referido ensaio:

[A]o lado de uma política externa, o Brasil necessita de uma metapolítica externa, para que possamos situar-nos e atuar naquele plano cultural-espiritual em que, muito mais do que no plano do comércio ou da estratégia diplomático-militar, estão se definindo os destinos do mundo. Destinos que precisaríamos estudar, não só do ponto de vista da geopolítica, mas também de uma 'teopolítica'. [meus grifos]
Como já estabelecido, se essa "teopolítica"/"metapolítica" tem como base uma concepção esotérica, então se faz necessário compreender como ela se articula até chegar à proposição de um nacionalismo que, mais do que o termo sugere, é também, e mais essencialmente, um "culto mistérico" e segundo o qual cada nação "é também uma religião".
Para tanto, não se pode cair no erro, que tem se tornado muito comum, de tomar as idéias de Ernesto Araújo, ou de Olavo de Carvalho, entre outros, na mesma chave com que se recebem as intervenções da Ministra Damares Alves ou de Iolene Lima. Leo Strauss, com seu Perseguição e a Arte de Escrever e suas considerações sobre as reais crenças de Maimônides, já deu rigor acadêmico à compreensão de como o discurso esotérico se camufla em uma nuvem de aparente religiosidade convencional.



É preciso atenção para não se deixar levar pelos símbolos linguísticos cristãos quando utilizados por pensadores gnósticos que se dizem defensores ou representantes da "fé cristã", sobretudo quando eles mesmos fazem referência a autores esotéricos como base de seu pensamento.

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O Ocidente cristão herdou da Antiguidade grega o conceito que se convencionou chamar de A Grande Cadeia do Ser. Essa Grande Cadeia seria a hierarquia que, iniciando-se no Ser Supremo - a origem de todos os seres e de toda a possibilidade de existência -, desceria, passando pelos deuses (ou anjos, na classificação cristianizada) e chegando até os homens, animais e minerais (existe um clássico de Arthur O. Lovejoy, publicado pela Harvard University Press, a respeito). 



Em consonância com o que apresentam as Escrituras, essa Grande Cadeia do Ser foi assimilada pelo Cristianismo como apresentando o Deus Criador no topo e, abaixo, os seres por Ele criados mediante Sua Vontade soberana.

Os gnósticos, no entanto, mantiveram uma perspectiva mais próxima da neoplatônica, mesmo que eles se apresentem exteriormente como defensores do Cristianismo.

De forma geral e muito simplificada, pode-se dizer que eles concebem a Grande Cadeia do Ser tendo, em seu topo, o Uno Transcendente Supra-Individual do qual emanariam - surgiriam espontaneamente, por assim dizer - deuses dos quais, por sua vez, "emanariam" ainda outros, em quantidade sempre crescente, até que, por fim, teríamos a realidade sensível na qual vivemos de forma mais imediata.

Um povo, uma nação, seria, portanto, mais do que uma coletividade humana com vínculos históricos, culturais, linguísticos ou étnicos entre seus membros. O modo de ser, agir ou pensar associado a um tipo nacional seria a manifestação sensível das possibilidades ontológicas contidas potencialmente na divindade arquetípica da qual essa nação mais imediatamente emanaria. Por essa razão, cada membro dessa nação teria de buscar a realização dessas possibilidades. Essa seria a finalidade, o "telos" de sua existência.


É dessa metafísica que advém a "metapolítica" que embasa o nacionalismo gnóstico. E é só munido desses conceitos que se pode compreender as palavras de Fernando Pessoa, ecoadas por Ernesto Araújo, sobre cada nação ser como um mistério, o que incluiria, no detalhamento feito pelo atual Ministro, também um "rito iniciático", um "culto mistérico" e "uma religião". Realizar, atualizar esse arquétipo nacional seria, segundo essa perspectiva, mais do que expressar uma "cultura", mas rigorosamente o cumprimento de um rito, o viver em consonância - e, consequentemente, em "ressonância" - com a divindade que deu origem a uma dada nação.
Ainda nessa concepção, os anjos - equivalentes semíticos dos deuses, segundo os esotéricos - seriam mais do que "entes" espirituais criados por Deus. Eles seriam "níveis da realidade". Seriam "estados" e, ao mesmo tempo, "seres supra-individuais".

É por essa razão que René Guénon escreveu, em O Homem e seu Devir Segundo o Vedanta [que, é importante destacar, Olavo de Carvalho inclui na lista de "Livros que fizeram minha cabeça"], abaixo em sua tradução espanhola:
[C]asi todo lo que se dice teologicamente de los ángeles puede decirse também metafisicamente de los estados superiores de ser. 





Reforçando, o mesmo autor diz, em "Os Estados Múltiplos do Ser", desta vez em tradução brasileira:
Já notamos que quase tudo o que é dito teologicamente dos anjos pode ser dito metafisicamente dos estados superiores do ser.





A propósito, alguns leitores devem se lembrar que, em 2015, nos artigos "A Igreja Humilhada" I e II, o pensador e, é importante lembrar nesse contexto,  também astrólogo Olavo de Carvalho defendeu que a recuperação da Igreja Católica só seria possível através do anterior resgate da "cosmologia medieval".

Vejamos o que Guénon - que "fez a cabeça" do Olavo e de Araújo - diz no trecho seguinte àquele reproduzido logo acima:
Já notamos que quase tudo o que é dito teologicamente dos anjos pode ser dito metafisicamente dos estados superiores do ser, assim como, no simbolismo astrológico da idade média, os “céus”, ou seja as diferentes esferas planetárias e estelares, representam estes mesmos estados, e também os graus iniciáticos aos quais corresponde sua realização; e, como os “céus” e os “infernos”, os Dêvas e os Asuras, na tradição hindu, representam respectivamente os estados superiores e inferiores em relação ao estado humano.
Veremos, na 4ª parte, a aplicação dessa "metapolítica" gnóstica à ordem política internacional.

Caio Rossi - Publicado originalmente no blogue Pérolas da Nova Direita